Cartazes de programas assistenciais dividem espaço com rachaduras e infiltrações nas paredes do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de Comendador Soares, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. No canto da sala, um servidor preenchia fichas de cadastro para o Bolsa Família, enquanto moradores aguardavam a vez de atendimento. Entre o grupo estava o desempregado X., de 36 anos. Pai de quatro crianças, informou ter ido ao local por indicação de um assessor do candidato a vereador Berriel. Assim que citou o nome, o desempregado foi interrompido pelo funcionário, identificado como Michelim, que em voz alta disse trabalhar para o político.
Sebastião Wagner Berriel (PT) era o secretário municipal de Assistência Social até abril, quando se desincompatibilizou do cargo para disputar uma vaga na Câmara de Vereadores de Nova Iguaçu, deixando em seu lugar Márcia Vieira. Apesar do desligamento, o diálogo entre o morador e o servidor — gravado com uma microcâmera — revelou a influência exercida por Berriel sobre o Cras, que integra a estrutura da secretaria responsável pela elaboração de cadastros para o Bolsa Família, Programa do Leite e distribuição de cestas básicas do Banco de Alimentos às famílias carentes da região.
“Eu trabalho para o Berriel”
Sem conseguir trabalho há três meses, X. decidiu buscar ajuda no Cras após ter sido orientado por um cabo eleitoral de Berriel, que colocava placas do candidato na rua onde ele mora. X. foi ao local tentar a inclusão dos filhos no Programa do Leite, mantido pela prefeitura e que atende a cerca de dez mil pessoas. Mas foi alertado pela servidora Rosa que a distribuição de leite estava suspensa. Ele, então, disse ter ido ao Cras por indicação de Berriel. Nesse instante, o servidor que preenchia fichas de cadastro interrompeu a conversa:
— Posso te dizer uma verdade? Eu trabalho para o Berriel. Só que aqui somos orientados por ele a não falar de política.
Na vez de X., o servidor escreve num papel dia e hora para o morador retornar. No verso é possível ler a relação de documentos que X. precisa apresentar para ser incluído no programa assistencial. Entre eles, título de eleitor. É preciso levar cópias dos documentos de todos os moradores da casa. Uma pesquisa na página do Bolsa Família mostra o aumento no número de famílias beneficiadas pelo programa em Nova Iguaçu. Em junho, foram 48.411 famílias. No mês seguinte, o número saltou para 50.550. Já na primeira quinzena de agosto, foram 47.470 beneficiados. Mas não foi só no Bolsa Família que houve aumento de beneficiados. Nos meses de maio e junho, a Secretaria de Assistência Social comprou seis mil cestas básicas da empresa Milano por R$ 89, cada. Em todo o ano passado foram cinco mil cestas.
Santinhos e distribuição de frutas
Por duas semanas, O GLOBO ouviu moradores que buscavam auxílio na sede da Secretaria de Assistência Social e nos nove Cras do município. Em geral, disseram que a indicação de Berriel é garantia de inclusão em um dos programas assistenciais. Na sede da Secretaria de Assistência Social, no centro do município, enquanto aguardavam atendimento, na última quarta-feira, os moradores dividiam espaço na calçada com veículos adesivados com material de campanha do ex-secretário, que aparece numa das fotos ao lado da prefeita e candidata à reeleição, Sheila Gama (PDT).
Na quinta-feira, durante distribuição de mantimentos — frutas, verduras e legumes — no Banco de Alimentos de Cerâmica, O GLOBO flagrou sobre o painel de um Citroën Picasso, estacionado próximo ao ponto de entrega, santinhos de campanha de Berriel.
O GLOBO entrou em contato com a prefeitura de Nova Iguaçu para ouvir a prefeita Sheila Gama e a secretária Márcia Vieira, mas não obteve resposta. Berriel também não se manisfestou. Já o servidor que na gravação diz que trabalha para Berriel desligou o telefone do Cras ao ser informado que o diálogo com o morador foi gravado.
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