Uma das operações básicas na matemática é a comutatividade. Ou mais simplesmente, a ordem dos fatores não altera o produto. No mundo do marketing, não é bem assim. Para desconstruir a imagem de fragilidade que as marcas francesas sofrem no Brasil, a Citroën inverteu a lógica do lançamento do C3 Picasso por aqui. Primeiro surgiu a versão "lameira", batizada de C3 Aircross, com aspecto mais robusto. E, em maio deste ano, chegou às concessionárias da marca o C3 Picasso "civil" apresentado na Europa em 2008. Dentro da gama do modelo, a versão topo de linha Exclusive tem papel fundamental. Responsável por 29% do mix de vendas do modelo, é ela quem procura transmitir a imagem de sofisticação que a Citroën tem no país sem abrir mão da robustez conquistada pelo AirCross – a GL corresponde a 10% das vendas e a GLX a 61%.
Apesar do pouco tempo de mercado, o C3 Picasso vem aumentando suas vendas sem afetar muito o desempenho do Aircross. Ou seja, nada que indique um processo chamado canibalização – quando um modelo "rouba" vendas de outro da mesma marca. Analisando os números de maio e junho, o C3 Picasso saltou de 143 para 449 unidades vendidas. E os números de julho projetam um volume em torno de 700 unidades. No mesmo período, o Aircross manteve suas vendas, com 1.518 unidades comercializadas em maio e 1.508 em junho – mas em julho os números não devem passar de 1.300 unidades em um cenário de queda geral. Na lista de concorrentes do C3 Picasso, estão Volkswagen SpaceFox, Chevrolet Meriva, Nissan Livina, Fiat Idea e Kia Soul. O visual é um dos principais apelos do C3 Picasso – se não for o maior. O monovolume compacto da Citroën chama a atenção pelo desenho estiloso. Em relação ao Aircross, o C3 Picasso apenas abriu mão da fantasia aventureira. Ou seja, saem de cena para-choques robustos, estribo, barras de teto, estepe na tampa do porta-malas e outros detalhes para que fique clara a vocação urbana do modelo. Mesmo em relação ao modelo vendido na Europa, o C3 Picasso brasileiro se diferencia pela abertura em forma de duplo chevron – inexistente na Europa – e pelos para-choques. O resultado final é um visual "clean".

Sem os adereços estéticos, o C3 Picasso ficou mais enxuto e mais leve. O modelo de 4,09 metros de comprimento, 1,72 m de largura e 1,63 m de altura ficou 19 cm menor no comprimento que o Aircross, graças à retirada do estepe da traseira. E 3 cm menor na largura pela ausência dos estribos laterais e 12 cm na altura sem as barras longitudinais no teto. Já o entre-eixos de 2,54 m é o mesmo para ambos. A redução das dimensões e a ausência de acessórios estéticos também proporcionou um significativo "emagrecimento". Com 1.323 kg na versão Exclusive, o C3 Picasso é 63 kg mais leve que o Aircross. Além disso, a altura de rodagem está menor em 30 mm graças aos pneus P7 195/55 R16 – em vez dos 205/60 R16 de uso misto do Aircross – e a uma suspensão recalibrada. Já a oferta de motores é a mesma para os dois modelos. Sob o capô está o conhecido 1.6 16V Flex de 113/110 cv de potência com etanol/gasolina – amplamente utilizado na linha Citroën e Peugeot.
A lista de equipamentos da versão Exclusive é naturalmente mais recheada que as de entrada GL e e a intermediária GLX. A configuração "top" sai de fábrica com airbag duplo – nas outras versões oferecido apenas como opcional – alarme, controle de cruzeiro, ar automático, mesinhas tipo avião no encosto, rádio com Bluetooth e entrada USB, bancos e volante revestidos em couro, retrovisores externos cromados etc. Entre os opcionais estão airbags laterais, sistema de navegação com tela de 7 polegadas e câmbio automático de quatro velocidades. O preço do C3 Picasso Exclusive parte de R$ 57.900 para a versão manual e atinge o topo de R$ 60.400 na automática. O Aircross na mesma versão Exclusive parte de R$ 63.400. Ou seja, o C3 Picasso assume sua vocação urbana e cobra menos. Ponto a ponto Desempenho - O motor 1.6 16V de 113 cv que equipa o C3 Picasso está longe de oferecer um desempenho extraordinário, mas também não decepciona. Esta unidade de força tira os 1.323 kg da inércia com relativa agilidade. Já as retomadas deixam a desejar, principalmente nas marchas mais altas. Na estrada, o C3 Picasso atingiu a velocidade máxima de 170 km/h. Nota 7. Estabilidade - O C3 Picasso apresenta uma dinâmica surpreendente para um monovolume de 1,63 m de altura. Bem construído, com bom nível de rigidez torcional e suspensão bem trabalhada, o modelo encara curvas em alta velocidade com equilíbrio e se mostra sempre nas mãos do motorista. Nas retas, a comunicação entre rodas e volante exige algumas correções somente a partir dos 140 km/h. Nota 8. Interatividade - O monovolume oferece uma posição elevada para dirigir, com excelente visibilidade dianteira e lateral. Já a traseira é prejudicada pelo vidro diminuto. O modelo conta com ajustes do banco e do volante e a maior parte dos comandos são intuitivos e estão ao alcance das mãos e olhos do motorista de forma prática. O quadro de instrumentos oferece uma visualização clara e objetiva, já os comandos do som e do GPS são práticos, mas pouco intuitivos. Uma das falhas do modelo é a posição pouco usual e até desconfortável do câmbio. Nota 7. Consumo - O modelo avaliado 2/3 na cidade e 1/3 na estrada obteve a média de 6,2 km/l com etanol, um número abaixo do esperado. Nota 6. Tecnologia - O C3 Picasso utiliza a mesma plataforma do modelo europeu, que é uma versão aperfeiçoada e alongada da arquitetura do C3 fabricado aqui. O motor 1.6 litro 16V é aplamente utilizado tanto pela Citroën como pela Peugeot. Equipamentos de segurança – airbags duplos e ABS – vêm de série nesta versão Exclusive, mas são oferecidos apenas como opcionais nas outras configurações. O modelo traz como opcionais airbags laterais e sistema de entretenimento com tela de 7 polegadas. Nota 7. Conforto - O C3 Picasso possui espaço interno surpreendente. O vão para cabeças é ótimo para todos os ocupantes, enquanto motorista e carona desfrutam de um bom espaço para pernas e joelhos na frente. Atrás dois adultos e uma criança conseguem viajar sem apertos. A suspensão macia filtra bem os buracos das ruas brasileiras, mas não se sai tão bem em altas velocidades. E o carro se mostra um tanto "molenga". Nota 8. Habitabilidade - O acesso ao monovolume é facilitado pela altura do modelo e também pelos amplos acessos das portas dianteiras e traseiras, que apresentam vão generoso. Fora isso, há boa oferta de porta-objetos no console central e nas portas. O porta-malas acomoda 403 litros, que podem chegar a 1.500 litros com o banco traseiro rebatido. Nota 8. Acabamento - É um dos destaques do C3 Picasso. No habitáculo, os revestimentos são emborrachados e há diversos detalhes cromados que transmitem sofisticação e charme. Há ainda apliques plásticos tipo "black piano" em pontos do painel. Os encaixes são precisos e não há qualquer sinal de rebarba aparente. Além disso, bancos e forrações utilizam materiais agradáveis ao toque e aos olhos. Nota 8. Design - Ao lado do Aircross, o C3 Picasso parece "pelado". A impressão é dada pela inegável comparação entre os modelos, sendo que a versão urbana – sem o estepe na traseira e adereços lameiros – tem visual mais comportado. Mesmo assim, o monovolume também consegue chamar a atenção por onde passa, graças as suas linhas sofisticadas. Nota 8. Custo/benefício - A versão Exclusive, a topo de linha, recebe airbag duplo, ABS, ar-condicionado, entre outros, e parte de R$ 57.900. Na mira estão modelos como Fiat Idea, Chevrolet Meriva, Volkswagen SpaceFox, Nissan Livina e Kia Soul. Todos equipados com motores 1.6 litro, à exceção da Meriva 1.8 litro. O preço está dentro da média do segmento. O Idea, que foi renovado recentemente e conta com o mesmo apelo visual, é vendido por R$ 54.800 com lista de equipamentos similar. O Nissan Livina começa em R$ 51.690, o Chevrolet Meriva, mais antiquado, parte de R$ 53.067, o SpaceFox sai de R$ 55.190 e o Kia Soul chega a R$ 58.900. Nota 7.
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